Opinião: A lógica de uma Região Administrativa Alentejo Litoral

A criação de uma Região Administrativa Alentejo Litoral faz sentido. O território já funciona como um conjunto coerente. O distrito de Setúbal tem vida própria. Não pertence à lógica de Lisboa, quanto mais ao Ribatejo ou ao Alentejo interior. É litoral, atlântico, portuário, urbano e rural ao mesmo tempo.
Odemira encaixa neste desenho. É costa, serra, agricultura, turismo e natureza. Vive ligada a Sines, a Santiago e a Grândola, e não ao interior. A sua vida diária aponta para o litoral, o mar e a faixa atlântica que une toda esta região.
Setúbal, Palmela, Sesimbra, Almada, Seixal, Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete formam um arco contínuo, ligado pelo estuário do Tejo, pelo porto, pela indústria e pela mobilidade diária que atravessa toda a península. Partilham problemas e soluções, dinâmicas e rotinas, e respiram como um território único. É uma região que se afirma por si própria e que não precisa de Lisboa para se definir.
Sines é o motor pesado deste sistema, com o porto, a energia, a logística e a ligação ao mundo que projetam o território para fora de si próprio. É também uma porta para o futuro, um ponto onde o litoral ganha força e direção. Não pertence à lógica de Lisboa, nem à lógica de Beja. Sines afirma-se como o centro de gravidade de um litoral que se estende do Cabo Espichel à Zambujeira.
Grândola e Santiago completam o corredor. São o eixo que liga o mar ao interior, o território que recebe a A26, o espaço que vive entre a serra e o porto. Representam o equilíbrio entre costa e planície, entre o peso industrial e a vida rural.
Alcácer do Sal é a porta do Sado, o cruzamento natural entre o litoral e o interior, o ponto onde o IC1, a A2 e o rio se encontram. É o nó que liga tudo e que dá continuidade ao desenho desta região atlântica.
Odemira fecha o mapa. É o maior concelho do país, com uma costa longa, agricultura intensa, turismo forte e natureza protegida. Mantém ligação direta ao litoral alentejano e ocupa um lugar essencial neste arco que une o Sado ao Mira.
A Península de Setúbal já não pertence à lógica de Lisboa. A mudança das NUTS deixou isso claro, tal como o sentir da população e a própria dinâmica económica. Falta apenas que a política acompanhe esta realidade.
Criar uma Região Administrativa Alentejo Litoral seria reconhecer o que já existe: um território com identidade, dinâmica e desafios próprios. Um território que precisa de gestão próxima, que não cabe na Estremadura e muito menos no Alentejo interior.
Portugal precisa de regiões alinhadas com o território real, capazes de refletir a vida das pessoas e acompanhar os fluxos e ligações que existem no terreno. Precisa de mapas com sentido, libertos de divisões antigas, independentes de fronteiras herdadas e adequados ao país de hoje.
O Alentejo Litoral existe como território vivo, como espaço coerente, como identidade que se reconhece. Falta apenas reconhecê-lo no papel.