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“Palavras, lugares e ideias de um curioso que gosta de ver o mundo por dentro.”

Ensaio  “O Acordo que Cheira ao Passado”

Francisco Fiúza, 17.01.26

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Há acordos que parecem janelas abertas para o futuro, e há outros que, por mais que brilhem nas conferências de imprensa, deixam entrar um cheiro antigo, um odor de madeira velha, de gavetas que já deviam ter sido esvaziadas. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul pertence a esta segunda categoria, um tratado que se apresenta como moderno, sustentável, equilibrado, mas que, quando o lemos com atenção, revela uma estrutura demasiado familiar, familiar ao ponto de nos fazer lembrar “a outra senhora”, não pela política, mas pela lógica, a lógica de quem extrai, regula e dita, enquanto o outro fornece, adapta-se e agradece.

A história repete-se, só muda o vocabulário.

Durante séculos, a relação entre Europa e América do Sul foi construída sobre um eixo simples, daqui saíam manufaturas, tecnologia, capital, e de lá vinham açúcar, café, ouro, carne, borracha. Hoje, trocámos caravelas por PDFs, bandeiras por cláusulas ambientais, e a palavra “colónia” por “parceiro estratégico”, mas o movimento profundo, esse que molda economias e destinos, continua surpreendentemente parecido.

O acordo UE–Mercosul cristaliza esta assimetria com uma elegância quase cínica, a Europa abre o seu mercado sobretudo para produtos agrícolas latino‑americanos, mas com quotas, limites, salvaguardas, almofadas de proteção para não ferir demasiado os seus agricultores, enquanto o Mercosul se abre quase por completo à indústria europeia, carros, máquinas, químicos, farmacêuticos, tudo com tarifas reduzidas ou eliminadas. É um casamento desigual, onde um dos noivos chega com a mala cheia e o outro com a mala vazia, e ainda assim paga a viagem.

Se o objetivo fosse desenvolvimento, o acordo teria outra arquitetura, teria transferência tecnológica, investimento em inovação, incentivos à industrialização local, fundos para modernizar cadeias produtivas, mecanismos para subir a cadeia de valor, teria, no fundo, aquilo que a Europa faz dentro de casa com os seus próprios membros mais frágeis. Mas não, o que oferece ao Mercosul é acesso ao mercado, desde que cumpra regras que não ajudou a financiar, é como pedir a alguém que construa uma casa sustentável sem lhe dar ferramentas, materiais ou crédito, apenas um manual de instruções.

E depois há a geopolítica, essa sombra que nunca aparece nos comunicados oficiais mas que está sempre sentada à mesa, a Europa quer recuperar terreno num continente onde a China já constrói portos, ferrovias e barragens, enquanto os Estados Unidos mantêm a sua presença histórica. A UE não compete com betão nem com financiamento, compete com normas, com “valores”, com a promessa de um mercado rico, é uma estratégia elegante, mas limitada, regula-se muito, investe-se pouco, e quem investe pouco raramente transforma.

O resultado é um acordo que beneficia o presente europeu mas compromete o futuro sul‑americano, a Europa garante matérias‑primas baratas, carne mais acessível, minerais críticos para a transição energética, e o Mercosul reforça a sua dependência de commodities, expõe-se a flutuações internacionais e adia, mais uma vez, o salto industrial que tantas vezes lhe prometeram.

É aqui que o cheiro antigo volta a subir, não é colonialismo clássico, não há bandeiras hasteadas nem governadores enviados de Lisboa ou Madrid, mas há uma forma de colonialismo económico, mais subtil, mais higienizada, mais compatível com o século XXI, um colonialismo sem violência explícita mas com assimetrias profundas, um colonialismo que não ocupa territórios mas ocupa funções económicas, um colonialismo que não impõe reis mas impõe papéis.

E o mais irónico é que a Europa teria muito a ganhar com um acordo verdadeiramente desenvolvimentista, parceiros mais ricos compram mais, economias mais diversificadas são mais estáveis, democracias mais fortes são melhores aliadas, mas o curto prazo, esse vício europeu, fala mais alto. E assim seguimos, com um acordo que parece novo mas que repete velhas coreografias.

No fundo, o que está em causa não é comércio, é visão, é coragem, é a capacidade de imaginar uma relação entre continentes que não repita o passado mas que o transcenda, uma relação onde ambos sobem, ambos aprendem, ambos se transformam.

Até lá, continuaremos a assinar tratados que brilham ao sol mas que, quando o vento muda, deixam escapar aquele cheiro a gaveta antiga.

Opinião: A lógica de uma Região Administrativa Alentejo Litoral

Francisco Fiúza, 10.01.26

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A criação de uma Região Administrativa Alentejo Litoral faz sentido. O território já funciona como um conjunto coerente. O distrito de Setúbal tem vida própria. Não pertence à lógica de Lisboa, quanto mais ao Ribatejo ou ao Alentejo interior. É litoral, atlântico, portuário, urbano e rural ao mesmo tempo.

Odemira encaixa neste desenho. É costa, serra, agricultura, turismo e natureza. Vive ligada a Sines, a Santiago e a Grândola, e não ao interior. A sua vida diária aponta para o litoral, o mar e a faixa atlântica que une toda esta região.

Setúbal, Palmela, Sesimbra, Almada, Seixal, Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete formam um arco contínuo, ligado pelo estuário do Tejo, pelo porto, pela indústria e pela mobilidade diária que atravessa toda a península. Partilham problemas e soluções, dinâmicas e rotinas, e respiram como um território único. É uma região que se afirma por si própria e que não precisa de Lisboa para se definir.

Sines é o motor pesado deste sistema, com o porto, a energia, a logística e a ligação ao mundo que projetam o território para fora de si próprio. É também uma porta para o futuro, um ponto onde o litoral ganha força e direção. Não pertence à lógica de Lisboa, nem à lógica de Beja. Sines afirma-se como o centro de gravidade de um litoral que se estende do Cabo Espichel à Zambujeira.

Grândola e Santiago completam o corredor. São o eixo que liga o mar ao interior, o território que recebe a A26, o espaço que vive entre a serra e o porto. Representam o equilíbrio entre costa e planície, entre o peso industrial e a vida rural.

Alcácer do Sal é a porta do Sado, o cruzamento natural entre o litoral e o interior, o ponto onde o IC1, a A2 e o rio se encontram. É o nó que liga tudo e que dá continuidade ao desenho desta região atlântica.

Odemira fecha o mapa. É o maior concelho do país, com uma costa longa, agricultura intensa, turismo forte e natureza protegida. Mantém ligação direta ao litoral alentejano e ocupa um lugar essencial neste arco que une o Sado ao Mira.

A Península de Setúbal já não pertence à lógica de Lisboa. A mudança das NUTS deixou isso claro, tal como o sentir da população e a própria dinâmica económica. Falta apenas que a política acompanhe esta realidade.

Criar uma Região Administrativa Alentejo Litoral seria reconhecer o que já existe: um território com identidade, dinâmica e desafios próprios. Um território que precisa de gestão próxima, que não cabe na Estremadura e muito menos no Alentejo interior.

Portugal precisa de regiões alinhadas com o território real, capazes de refletir a vida das pessoas e acompanhar os fluxos e ligações que existem no terreno. Precisa de mapas com sentido, libertos de divisões antigas, independentes de fronteiras herdadas e adequados ao país de hoje.

O Alentejo Litoral existe como território vivo, como espaço coerente, como identidade que se reconhece. Falta apenas reconhecê-lo no papel.

Curiosidade: Quando o “N” cai e nasce um “R”: o que as desqualificações das estradas revelam sobre o país

Francisco Fiúza, 03.01.26

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Passei recentemente pela antiga Estrada Nacional 390, entre Cercal do Alentejo e Vila Nova de Milfontes, e deparei‑me com um detalhe discreto, mas cheio de significado: os trabalhadores estavam a substituir o N por um R nas placas.

A velha N390 tornava‑se oficialmente R390.

À primeira vista, parece apenas uma troca de letras.

Mas por detrás deste gesto há uma história maior. A história de como Portugal reorganiza o seu território, redistribui responsabilidades e redefine o que considera “nacional”.

 

O que significa desclassificar uma estrada?

Quando uma estrada deixa de ser “N” (Nacional) e passa a “R” (Regional), não é apenas uma mudança de nome.

É uma mudança de hierarquia, de gestão e, muitas vezes, de destino.

Deixa de pertencer à Rede Rodoviária Nacional: A estrada já não é gerida diretamente pela Infraestruturas de Portugal.

Passa para a esfera regional ou intermunicipal: A responsabilidade pode ser de uma CIM, de uma região administrativa ou até de vários municípios em conjunto.

É reconhecida como via de interesse local, não nacional: Ou seja, serve sobretudo a população da região, não o país inteiro.

Porque é que isto acontece?

A desqualificação de estradas é um processo que se intensificou nas últimas décadas.

O Estado central tem vindo a concentrar-se nas vias estruturantes, autoestradas, itinerários principais (IP) e complementares (IC), e a transferir para as regiões as estradas que:

  • já não têm função estratégica nacional
  • foram substituídas por vias mais rápidas
  • servem essencialmente ligações locais
  • atravessam zonas rurais ou de baixa densidade

A R390 e a R393, no litoral alentejano, são exemplos perfeitos deste movimento.

 

O paradoxo da modernidade: as regionais estão, muitas vezes, melhores que as nacionais

E aqui surge a ironia que qualquer pessoa da região reconhece:

  • A R390 e a R393 foram requalificadas, têm piso novo, bermas limpas e sinalização moderna.
  • Já troços da EN120 ou da EN123, que continuam “nacionais”, estão cheios de remendos, desgaste e abandono.

Porquê?

Porque as entidades regionais e municipais, quando recebem uma estrada, muitas vezes investem nela de imediato, aproveitando fundos europeus ou programas de desenvolvimento local.

Enquanto isso, estradas nacionais sem prioridade ficam anos à espera de intervenção.

É um daqueles casos em que a teoria e a prática se cruzam de forma inesperada:

uma estrada “desqualificada” pode, na verdade, ganhar nova vida.

 

Modernidade não é só alcatrão: é gestão, proximidade e visão

A modernização das estradas regionais não se mede apenas pelo estado do piso.

Mede‑se pela capacidade de resposta:

  • reparações mais rápidas
  • decisões tomadas localmente
  • obras adaptadas às necessidades reais da população
  • maior sensibilidade ao território

Quando a gestão está mais próxima, a estrada deixa de ser apenas um traço no mapa e passa a ser um elemento vivo da comunidade.

 

O que a troca de um “N” por um “R” nos diz sobre o país

Diz-nos que Portugal está a reorganizar-se.

Que o centro já não quer ou não consegue cuidar de tudo.

E que as regiões estão a ganhar um papel mais ativo na forma como se ligam, se movem e se desenvolvem.

A R390 é um símbolo disso:

uma estrada que perdeu estatuto nacional, mas ganhou cuidado, modernidade e atenção local.

Às vezes, perder uma letra é ganhar um caminho.

Curiosidade: De Onde Vem o Nome Fiúza

Francisco Fiúza, 07.11.25

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O apelido Fiúza não nasceu em famílias nobres nem em salões importantes. A sua origem está ligada ao trabalho manual, à precisão e ao cuidado. Antigamente, Fiúza estava relacionado ao ato de afiar e preparar ferramentas. Era um nome dado a quem tratava do fio das lâminas e dos instrumentos usados no dia a dia. Gente que sabia dar utilidade às coisas.

Com o tempo, o nome espalhou-se sobretudo pelo Norte do país, entre o Minho e o Douro. Há registos antigos de famílias Fiúza em terras verdes, atravessadas por rios largos e povoadas de pequenas aldeias de pedra. A maior parte dessas famílias eram lavradores livres: trabalhavam a terra, mas não estavam presos a senhores ou casas nobres. Era gente que vivia do que a terra dava, mas com independência e algum orgulho nisso.

Quando se fala em Fiúza, fala-se de pessoas que acordavam cedo, que aprendiam a ler o tempo na cor do céu, que sabiam quando plantar e quando colher. Um nome que carrega esta ideia de ofício, paciência e ligação à terra.

Saber isto muda pouco no presente, mas cria um certo alinhamento com o passado. Perceber de onde vem o nome é recordar que antes de nós houve mãos, decisões e caminhos que nos trouxeram até aqui.

É apenas uma curiosidade, mas é daquelas que nos devolve uma ligação discreta ao lugar de onde vimos.

Rotas: A Veneza portuguesa

Francisco Fiúza, 28.10.25

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Há cidades que não se visitam, escutam-se. Aveiro é uma delas. O som que a define não é o ruído das buzinas nem o passo apressado das multidões, é o deslizar dos moliceiros sobre a água, o murmúrio das marés que se misturam com o tilintar das bicicletas.

Voltar a Aveiro é como regressar a uma canção antiga: familiar, mas sempre diferente. Há um compasso entre as fachadas de azulejos e o reflexo colorido que o canal devolve. Há o cheiro doce dos ovos moles, que parece colar-se à memória. E há o vento que vem da ria, leve e teimoso, a lembrar que o mar está sempre por perto, mesmo quando não se vê.

Passear por aqui é andar entre dois tempos: o das casas que resistem, com janelas que contam histórias, e o de um presente que se reinventa entre cafés, galerias e risos de estudantes. Em Aveiro, a água é espelho, e o viajante é sempre convidado a olhar-se nele, talvez para perceber o que ficou por dentro de cada partida.

No fim do dia, quando a luz se inclina e tudo ganha tons dourados, há um instante em que a cidade parece suspensa, e é aí, nesse silêncio breve, que percebo porque lhe chamam a Veneza portuguesa. Não é pelos canais. É pela beleza discreta de quem vive entre o reflexo e a realidade.