Ensaio “O Acordo que Cheira ao Passado”

Há acordos que parecem janelas abertas para o futuro, e há outros que, por mais que brilhem nas conferências de imprensa, deixam entrar um cheiro antigo, um odor de madeira velha, de gavetas que já deviam ter sido esvaziadas. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul pertence a esta segunda categoria, um tratado que se apresenta como moderno, sustentável, equilibrado, mas que, quando o lemos com atenção, revela uma estrutura demasiado familiar, familiar ao ponto de nos fazer lembrar “a outra senhora”, não pela política, mas pela lógica, a lógica de quem extrai, regula e dita, enquanto o outro fornece, adapta-se e agradece.
A história repete-se, só muda o vocabulário.
Durante séculos, a relação entre Europa e América do Sul foi construída sobre um eixo simples, daqui saíam manufaturas, tecnologia, capital, e de lá vinham açúcar, café, ouro, carne, borracha. Hoje, trocámos caravelas por PDFs, bandeiras por cláusulas ambientais, e a palavra “colónia” por “parceiro estratégico”, mas o movimento profundo, esse que molda economias e destinos, continua surpreendentemente parecido.
O acordo UE–Mercosul cristaliza esta assimetria com uma elegância quase cínica, a Europa abre o seu mercado sobretudo para produtos agrícolas latino‑americanos, mas com quotas, limites, salvaguardas, almofadas de proteção para não ferir demasiado os seus agricultores, enquanto o Mercosul se abre quase por completo à indústria europeia, carros, máquinas, químicos, farmacêuticos, tudo com tarifas reduzidas ou eliminadas. É um casamento desigual, onde um dos noivos chega com a mala cheia e o outro com a mala vazia, e ainda assim paga a viagem.
Se o objetivo fosse desenvolvimento, o acordo teria outra arquitetura, teria transferência tecnológica, investimento em inovação, incentivos à industrialização local, fundos para modernizar cadeias produtivas, mecanismos para subir a cadeia de valor, teria, no fundo, aquilo que a Europa faz dentro de casa com os seus próprios membros mais frágeis. Mas não, o que oferece ao Mercosul é acesso ao mercado, desde que cumpra regras que não ajudou a financiar, é como pedir a alguém que construa uma casa sustentável sem lhe dar ferramentas, materiais ou crédito, apenas um manual de instruções.
E depois há a geopolítica, essa sombra que nunca aparece nos comunicados oficiais mas que está sempre sentada à mesa, a Europa quer recuperar terreno num continente onde a China já constrói portos, ferrovias e barragens, enquanto os Estados Unidos mantêm a sua presença histórica. A UE não compete com betão nem com financiamento, compete com normas, com “valores”, com a promessa de um mercado rico, é uma estratégia elegante, mas limitada, regula-se muito, investe-se pouco, e quem investe pouco raramente transforma.
O resultado é um acordo que beneficia o presente europeu mas compromete o futuro sul‑americano, a Europa garante matérias‑primas baratas, carne mais acessível, minerais críticos para a transição energética, e o Mercosul reforça a sua dependência de commodities, expõe-se a flutuações internacionais e adia, mais uma vez, o salto industrial que tantas vezes lhe prometeram.
É aqui que o cheiro antigo volta a subir, não é colonialismo clássico, não há bandeiras hasteadas nem governadores enviados de Lisboa ou Madrid, mas há uma forma de colonialismo económico, mais subtil, mais higienizada, mais compatível com o século XXI, um colonialismo sem violência explícita mas com assimetrias profundas, um colonialismo que não ocupa territórios mas ocupa funções económicas, um colonialismo que não impõe reis mas impõe papéis.
E o mais irónico é que a Europa teria muito a ganhar com um acordo verdadeiramente desenvolvimentista, parceiros mais ricos compram mais, economias mais diversificadas são mais estáveis, democracias mais fortes são melhores aliadas, mas o curto prazo, esse vício europeu, fala mais alto. E assim seguimos, com um acordo que parece novo mas que repete velhas coreografias.
No fundo, o que está em causa não é comércio, é visão, é coragem, é a capacidade de imaginar uma relação entre continentes que não repita o passado mas que o transcenda, uma relação onde ambos sobem, ambos aprendem, ambos se transformam.
Até lá, continuaremos a assinar tratados que brilham ao sol mas que, quando o vento muda, deixam escapar aquele cheiro a gaveta antiga.



